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A CACHAÇA, NÓS E O PAPA: (PINGA)R LÁGRIMA É ORAR

Isis Maria Cunha Lustosa

É ou não muito vinho de mesa, diante tanta oração, em cada Missa?  A alocução interrogativa proporciona analogia ao comentário papal “Vocês não têm salvação. É muita cachaça e pouca oração.”[i]

Sempre escutei dos mais maturados em idade que as palavras têm muita força, podendo, assim, emergir-te ou imergir-te. Aprecio levar, por meio da mente, as minhas palavras ao “Banho-Maria”[ii]. Quem escreve, contempla a fervura das letras, sílabas, palavras, frases, orações, parágrafos, laudas, textos, tudo aquilo que sai para o impresso, o digital ou para o oral. Cozinhar as orações subordinadas e/ou coordenadas da nossa língua portuguesa, tão una e diversa, assim como nós, brasileiras e brasileiros, é uma receita básica a fim de evitar soltá-las cruas ou mal cozidas, as palavras. O cuidado com os vocábulos é algo a ser exercido, quase como um retiro mental, o que resulta em evitarmos as distintas e/ou más interpretações. Portanto, no comentário do Chefe Supremo da Igreja Católica Apostólica Romana, solto em público, faltou fervura branda nas palavras. Assim, a meu ver, a sua resposta é genérica, nada simpática, jogada ao vento romano, após outro religioso, um padre brasileiro, presente naquele pátio, no Vaticano, involucrar a população brasileira em um único contexto de religiosidade, expressando-se ao Pontífice Francisco: “Santo padre, reze por nós, brasileiros.”[iii]

Então, retomando-se, “Vocês não têm salvação. É muita cachaça e pouca oração”, as três orações sem infusão, servem de primeira e de segunda leituras, como pregação para suscitar  esta crônica alongada, prévia ao próximo Corpus Christi.

Junho, juntos-separados, chegou!

Outro junho em estado universal de Pandemia!

Vivos(as)!? Os(as), ainda, vivos(as) em salvação, sigamos.

Quem desejar subir um monte sem Oliveiras e (em distanciamento físico) estar junto de si, recostado numa outra árvore, degustando a dose de Cachaça de algum Santo Junino, durante o feriado eucarístico, à vontade para prosseguir lendo... 

...Eu mesma, brasileira, nordestina, semiárida para alguns, Caatingueira, Cerradeira, sou apenas o invólucro da dose festiva do(a) Santo(a). Nada bebo, sem comedimento, para manter as palavras em condimento na medida. Santa, na dose, estou. Apenas significo um vetor de orações substantivas, adjetivas, adverbiais, sindéticas ou assindéticas na condução do líquido aromático das Senhoras Amburana, Carvalho, Bálsamo, Jequitibá e outras, madeiras-mãe como barris, sobrepostos (não aleatoriamente) pelos caminhos das degustações maturadas e palatáveis, poéticas até (sob) as sombras dos Ipês.

O Ipê-Rosa floreia por aqui fora do barril... Leveza na paisagem da seca nos Cerrados.

É durante a fecundação do líquido da cana açucarada, naturalmente, e acolhida pela madeira-madre, em que há um diálogo amadurecido, ou seja, toma corpo fluído a “qualidade sensorial da Cachaça”[iv], mantido entre o útero (dorna ou tonel) e as filhas-pródigas desse dito barril, as Cachaças.

Eu que o diga, ter conhecido um poeta, cordelista, que quanto mais próximo estava da Cachaça Mangueira[v], a veia em versos e prosas fluía pela tinta solta da caneta, como orações naquela sua cursiva letra, em português exímio, verso acima, verso abaixo, versículos, estrofes críticas e fundamentadas. Não falo de Carlos Cachaça, mangueirense, da Estação Primeira de Mangueira, embora seja outro célebre, um compositor brasileiro, ambos falecidos.

Porque, Jesuíta Francisco, censurar-nos, “Vocês não têm salvação. É muita cachaça e pouca oração”, se tudo vem da dulcificada Cana-de-Açúcar? Não culpe-nos. A culpa nem é da Cana-Caiana, prensada com supra e sumo, virando, a cana, tipo ouro ou prata. Também, não é a culpabilidade da artesanal ou orgânica Cachaça.

Não condeneis Francesco, a nossa envelhecida, experiente, aquela que faz geograficidade nas cinco grandes regiões do nosso país. A mesma, que não é água ardente, é Cachaça mesmo, expressão trissílaba como uma trindade, com dois "c" solteiros e outro “c” convivente com a cedilha, icônica, para demonstrar toda a sua origem histórica no Brasil.

Cachaça, Presente!

Tudo bem, estamos por um fio, pois viver num desgoverno é um desafio.

Milhões, Eternamente Ausentes!

Malabarismos pelas vidas ceifadas!

Quase meio milhão de falecidos(as) brasileiros(as), ó Vigário de Cristo!

(Pinga)r lágrima é orar!

Independente de Pandemia, todas as rezas, têm a sua valia. Ecumenismo! Em meio àquela multidão, ó Papa, alguém de batina, igualmente a ti, rogar-te: “Santo padre, reze por nós, brasileiros.” Adendo: e brasileiras.

Não debocheis, Santo Papa, da nossa condição à deriva de gestão.

A salv(ação) é a vacin(ação)!

A nossa saga é a sina sem vacina.

Or(ação), sabeis Pontífice, dispomos de muitas, das distintas rezas e raízes que nos faz popul(ação) diversificada.

Não dá é para orar por orar, sem ação.

Isso, NÃO!

Seria uma pura sangria ou obsessão sem valia.

Valei-nos, Sumo Pontífice, do desconjuro federal solto (sem limites) diante de nós.

Agradecemos, portanto, a sua intercessão, com uma dose para nós, mentores(as) da Cachaça, uma para vós, convidado para a ceia não presencial, conosco brindemos à distância, e outra dose para cada Santo(a) do dia.

É outra forma de salvação, sem o vinho, como o cerne do corpo, substituído pela bebida quente, a Cachaça, em questão.

Exercício degustativo, por aqui entre determinados(as) brasileiros(as), para engolir o quadrado homem da rampa do Planalto Central.

"Hosana nas alturas"[vi] dos voos!

Salvação?

Ó, ainda não é a dose de vacina à vista, suplente de Pedro.

Esta promessa é que não parece ter salvação, Santidade.

Juramento político!

Fake news!

Cruzes! Cruzes! E, mais, cruzes. (Pinga)r lágrima é orar!

A dose na nossa “Terra Prometida”[vii] é nossa de direito, sem depender de imposição falaciosa armada!

Sem rifa para rifar pessoas adversas à imposição nacional/governista.

Sem cifra de propina!

É nossa, a patenteada, a brasileira, a dose de “Patrimônio Histórico e Cultural”[viii] para ajudar até na imunidade, o gole uno da Cachaça com limão, própolis e açafrão-da-terra.

(Terra)cota é a cota a sete palmos da cor nas valas, covas... sepulcros.

Milhões de cruzes!

Cruzes, emissário de Pietro, tantas lágrimas sob as máscaras, com distanciamento do sentimento final.

Não chacoteeis de nós, brasileiros e brasileiras!

Basta-nos o inconsequente, despreparado, despresidente, transeunte sem medidas sanitárias com as suas anedotas, todas e ele, fora de rotas.

Envio-te uma amistosa iguaria, um doce de leite de seu país, Padre Santo, hermano  latino-americano, com recheio de nossa Cachaça brasiliana, Pater Sancte. Também, segue, com toda a nossa devoção, pois “o[a] brasileiro[a] é devoto[a] da cachaça, mas não é cachaceiro[a]”[ix], a Oração da Cachaça do Dia e, ainda, a miniatura da edição casta, fulgente para a tua grandiosa proteção, codinome em sua homenagem, Cachaça Oração.

Mas, se preferes homenagear onde te encontras, Papa dos Papas, terei, Francesco, mio fratello, de enviar-te a pizza artesanal de folhas de Ora-pro-Nóbis (Ore-por-Nós) vulgo “Bife de Pobre”. A massa terá, como prólogo, a dose do aperitivo para acordar as suas papilas sagradas, não com o “limoncello” gelado daí, mas a acolhida degustativa será à base de “licor de Cachaça” ao natural, daqui.

Não fiqueis sem graça, por favor, bem-humorado Jorge, diante de Nossa Senhora das Graças, com a minha graça em crônica longa, pois não combinaria a falta de gracejo de vossa parte com a segunda animada-dose da Cachaça, tomada, irmão, antes dos 30 dias da primeira dose da certeira, bendita pingar é orar, bem brasileira.

A “Água em Vinho”, Senhor Francisco, poderia até ter sido, aqui entre nós, os  “bienaventurados [...] que tienen hambre y sed de justicia”[x], os(as)  brasileiros(as), como o milagre de “Água em Cachaça”, pois a Cachaça possui codinome histórico (“vinho de cana”)[xi].

“Cachaça não é água não/ Cachaça vem do alambique/E água vem do Ribeirão”[xii], ó religioso-irmão.

Abraço da brasileira humana, a Nordestina fora da tina, com tino aguçado, adoçado com mel de cana, que a ti brinda com uma pinga de folhas, abençoada Cachaça, para te bendizer com preleção, irmão de fé.

Inté! Até, quem sabe um dia, encontrar-nos-emos em algum caminho jesuítico, presencial ou virtual, com a Cachaça curtida na mão, a Or(ação) não urgida na mochila e a Salv(ação), sem Covid-19, espalhada como bagaço de cana no acampamento mundial do século XXI vacinado.

Seguimos, a humanidade, depois do árduo 2020, acreditando que o um, do 2021, possa ser mais um(a) mantido(a) vivo(a) para não pingarmos lágrimas, mesmo sendo, o dito, “Pingar é Orar”.

Assim, seja, ó Papa Francisco.

Avancemos brasileiros(as), ainda sãos(sãs) e salvos(as), sempre nas lutas pelas vidas não ceifadas injustamente.

Venci!

Vencemos a Covid!

Tivemos salvação!

Será, Francisco, que a Cachaça adstringente ajudou? Além, claro, e sem dúvida, todas as orações, bençãos (benzeções), rituais, advindos a mim e a nós, pedindo licença para adentrar, à distância, a nossa morada, lugar desprovido de intolerância religiosa, pois os dois (brasileira e brasileiro naturalizado) deste canto aqui, ambos e o felino da morada tem espiritualidade, aquela proteção com a fé do nosso modo, e resistiram juntos diante estatística de mortes da Covid-19 do governo (nega)cionista. Sorte nossa e da nossa aludida gata, presentes.

Sigo lendo, tecendo linhas, publicando-as... Regando plantas... Meditando... Acarinhando a gata Miúda... Matando algumas fomes... Brindando a vida (exposta ao risco acentuado) com a sutil dose de Cachaça, o que não significa embriaguez (isso condiz sermos apenas “Vocês...”).

Assim, Francisco, congratular a dose de Cachaça aos Santos Juninos, Antônio, João e Pedro (o primeiro Papa), nos arraias juninos virtuais, festivos do Brasil, ouso em dizer que é oração em todo o junho de Corpus Christi.

Santo Papa, tudo isso, também, é forma de oração no meu reverso, igualmente como quem tece os terços, e, em sinal de oferta, toma o vinho sem condená-lo, portanto, simbolizando-o, o rubro, como o sangue de Cristo. Por que não o faz – dar a mesma salvação - a Cachaça?

Sua Santidade, antes que deslembre, Santo Franciscano, na nossa intimidade latina, a Cachaça, acrediteis hermano, a Cachaça, faz milagre, pois serve até de verniz à Arte Sacra no Brasil.

Há mais de 200 anos, o distrito de Morro Vermelho mantém a tradição do “banho” da Imagem de Nosso Senhor do Passos... Quarta-feira de Cinzas... 7 homens entram na Igreja... Depois de retirar do altar a imagem de Nosso Senhor dos Passos, do século 18, o grupo vai despi-la e dar um banho de cachaça em toda a escultura de cedro... Coincidência ou não, o fato é que essa é a única peça sacra da Matriz de Nossa Senhora de Nazareth ainda não atacada pelos insetos ou destruída pela ação do tempo.[xiii]

Santo Padre, ainda que em confissão particular, o ato deste banho, hei de dizer-te: É muita cachaça benevolente. E muita oração! Estas orações, em silêncio, detém concentração durante esse ritual bicentenário, sem nenhum daqueles homens tomarem doses ao invés de dar o banho santo, ou seja, para a salvação da última imagem sacra da matriz, a partir das sete garrafas de Cachaça adentradas no espaço sagrado, as mesmas são esvaziadas para o banho do Nosso Senhor do Passos. Creiais Francisco que na passagem narrada do banho – “É muita cachaça e pouca oração”[xiv], naquele ato bissecular, em Caeté, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, capital do estado de Minas Gerais.

É tudo uma questão de visão, divisão, Divinal Santidade!

Eita prosa comprida e cara para nós, brasileiros(as), pois é, a Cachaça, por aqui, já foi anestesiante; antisséptico; antivarejeira em carne seca à sombra ou ao sol; agrega condição de maciez a dita carne; enxuga a gordura do mesmo alimento; proporciona sabor, aroma e cor peculiar na dose certa em diversos pratos regionais ou não; aquece o corpo por meio do quentão tradicional, vendido nas festas católicas dedicadas aos três Santos juninos destacados. E, por pura ironia, a Cachaça poderá aquecer de modo malévolo o corpo que tem fome em situação de rua ou daquele(a) que, em desespero qualquer, se entrega, pura e tão somente, à Cachaça e aos seus outros efeitos, os quais são provocados, também, pelo vinho ou outra bebida sem controle algum, deixando, portanto, qualquer um(a), independente de nacionalidade, sem salvação, mas no sentido da sobriedade como cidadão dos seus atos.

A quem interessar possa, no menor país do planeta, chegando até vós alguma caipirinha sem açúcar, sem limão e sem gelo, não a recuse, pois terá nela, algo singular do Brasil, a pura Cachaça.

Adiamo tutti in pace?

Vamos todos(as) em paz-pandemia?

Devo parar, pois no andar da prosa graúda, a espirituosa gata Miúda, mais uma vez, singelamente mia... Toca-me com a cabeça. Pede toda a atenção, com razão. Mostra-me a Aurora do nosso dia. É feriado católico! Salvação! Cachaça! Oração!

Texto e foto da autora.

Isis Maria Cunha Lustosa, no reverso Sisi, noutra prosa...

Doutora e Mestre em Geografia.

Pesquisadora Externa – Laboter/IESA/UFG - Brasil.

Membro Pesquisadora – UBANEX-UBA-FFyL - Argentina

isismclustosa@gmail.com

 

 

[i] 'Não tem salvação. Muita cachaça e pouca oração', brinca papa sobre brasileiros. Disponível em: <https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/2021/05/26/nao-tem-salvacao-muita-cachaca-e-pouca-oracao-brinca-papa.> Acesso em: 26 maio 2021.

[ii] Quando criança, na cozinha da minha casa ou da morada da tia-avó, Dindinha, quase todo alimento a ser aquecido para um consumo posterior, recebia a fervura indireta, ou seja, o recipiente era acomodado dentro de outro maior com água, sem risco do líquido infiltrar a comida, aquecendo-a com lentidão, sem a pressa da chama direta.

 

[iii] 'Não tem salvação. Muita cachaça e pouca oração', brinca papa sobre brasileiros. Disponível em < https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/2021/05/26/nao-tem-salvacao-muita-cachaca-e-pouca-oracao-brinca-papa.> Acesso em: 26 maio 2021.

[iv] TREINAMENTO EM QUALIDADE SENSORIAL DA CACHAÇA. Disponível em: <https://www.esalq.usp.br/eventos/treinamento-em-qualidade-sensorial-da-cacha%C3%A7a>. Acesso em: 26 maio 2021.

[v] Cachaça do meu estado de origem, o Piauí, com uma cor dourada envelhecida no tom de melado de cana.

[vi] Santo é o Senhor. Coral Palestrante da Arquidiocese de Curitiba. Comp. Pe. Ney Brasil. Disponível em: <https://www.someliturgia.com.br/coral-palestrante-da-arquidiocese-de-curitiba/santo-e-o-senhor/1446/letra>. Acesso em: 26 maio 2021.

[vii] A caminho da Terra Prometida. Disponível em: <https://www.paulus.com.br/loja/a-caminho-da-terra-prometida-um-percurso-espiritual-com-o-livro-do-exodo_p_5662.html>. Acesso em: 26 maio 2021.

[viii]PROJETO DE LEI N.º 4.861-A, DE 2016. Disponível em:<https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra;jsessionid=9D18AA66A250A7B88C >. Acesso em: 26 maio 2021.

[ix] CÂMARA, Cascudo, Luis da. Prelúdio da Cachaça, Etnografia, História e Sociologiada aguardente no Brasil. Rio de, IAA, 1968; por Tatiana Paiva.

[x] Mateo 5:6-8

Reina-Valera 1960. Disponível em: < https://www.biblegateway.com/passage/?search=Mateo%205%3A6-8&version=RVR1960>. Acesso em: 26 maio 2021.

[xi]  PROJETO DE LEI N.º 4.861-A, DE 2016. Disponível em: < https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra;jsessionid=9D18AA66A250A7B88C. >.. Acesso em: 26 maio 2021.

[xii] Cachaça não é água. Disponível em: <https://m.letras.mus.br/ >. Acesso em: 26 maio 2021.

[xiii] Tradição no Morro Vermelho: Banho de Cachaça no Senhor dos Passos. Disponível em: <https://www.opiniaocaete.com.br/tradicao-no-morro-vermelho-banho-de-cachaca-no-senhor-dos-passos/>. Acesso em: 26 maio 2021.

[xiv] 'Não tem salvação. Muita cachaça e pouca oração', brinca papa sobre brasileiros. Disponível em: <https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/2021/05/26/nao-tem-salvacao-muita-cachaca-e-pouca-oracao-brinca-papa.> Acesso em: 26 maio 2021.

 

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