VALPARAÍSO: UM TEATRO PORTEÑO NO CHILE
Dallys Dantas
Valparaíso,
qué disparate eres,
qué loco, puerto loco,
qué cabeza con cerros,
desgreñada [...]
ODA A VALPARAÍSO
Pablo Neruda
Em minha primeira viagem ao Chile, neste ano, a estadia inicial (cinco dias) ocorreu, inesperadamente, na comuna¹ de Valparaíso, localizada no litoral central do país. Embora o desembarque aéreo foi em Santiago, a capital chilena serviu, naquele contexto, apenas como ponto de passagem. Isso porque o anfitrião da minha pasantía académica², motivo da viagem, estava em trabalho de campo em Valpo (denominação coloquial da cidade). Também lá me aguardava o novo amigo chileno, Ignácio Rojas, residente local e professor na Universidad de Playa Ancha, que gentilmente me ofereceu hospedagem. Como todo iminente viajante, tão logo ciente do itinerário, a primeira reação foi buscar informações sobre o destino.
A par do roteiro e conhecedor de muitos lugares, meu orientador no Brasil logo me adiantou que a cidade era reconhecida por seus cerros e suas casas de cores variadas e vibrantes. Não obstante, dentre tantas coisas que li, vi e ouvi antes de chegar a Valpo, chamou-me muito a atenção a seguinte descrição: "La geografía de Valparaíso es una especie de anfiteatro natural, donde un conjunto de cerros y quebradas miran directamente al mar" (Chile, 2026a). Como me gusta bastante saber a etimologia de palavras-chave, outra reação de curiosidade foi revisar o termo "anfiteatro" para, talvez assim, lograr compreender melhor a metáfora. Para evitar uma extensa nota de rodapé, presumo pertinente seguir em prosa com um brevíssimo resumo da búsqueda.
A palavra deriva do grego clássico amphithéatron, formada pela união de dois elementos: amphi, prefixo que significa "de ambos os lados", "em torno de"; e théatron, que designa “lugar de onde se vê”, por sua vez derivado de theáomai ("contemplar", "olhar"). Logo, anfiteatro corresponde a uma estrutura circular construída em torno de um palco central. Quizás, o exemplo clássico mais conhecido a nível mundial é o Coliseu de Roma (originalmente denominado Amphitheatrum Flavium). Outro é o famigerado Maracanã. Esse tipo de construção foi desenvolvido pelos romanos a partir do referencial grego, os teatros (théatron). Além da natureza dos espetáculos (comédia grega, combates romanos etc.), a principal distinção, em termos estruturais, é que as construções gregas eram semicirculares e apoiadas em encostas naturais. Assim, o aclive topográfico conformava as arquibancadas voltadas para o palco disposto na parte mais baixa do relevo.
Nesse sentido, o termo adequado para metaforizar a condição de Valparaíso seria teatro: no plano, ao centro, está o porto, o palco; assentada nos cerros, a cidade, as arquibancadas.
Apesar da exploração terminológica associada às informações secundárias sobre Valpo, uma percepção mais acurada da paisagem local carecia de empiria. Por isso, logo quando me aproximava da cidade, posicionei-me na primeira fila superior do ônibus para mirar. Com vista livre à frente, pude observar as primeiras encostas repletas de habitações, muitas ligeiramente sobrepostas umas às outras, quase como um edifício improvisado. Imponentes e sinuosos, os cerros se agigantavam lentamente à medida em que eu adentrava o sítio urbano ladeira abaixo rumo à rodoviária. Mas uma visão panorâmica ainda estava por vir.
Passado o efeito das irresistíveis copas de vinho na tarde da chegada, na manhã seguinte, saltei da cama, agasalhei-me (fazia 12ºC às 9h, gelado para um goiano) e, como sempre faço em novos lugares, fui perambular. Primeira parada: um caliente café. Calientado e cafeínado, apertei o passo rumo ao cerro mais próximo que permitisse contemplar, do alto, Valparaíso e o Pacífico. Por sorte, estava cerca do Cerro Alegre, um dos principais pontos turísticos da cidade. Após 15 minutos de caminhada por ruas sensivelmente inclinadas, além de escadarias coloridas e moderadas – a menor tinha 55 degraus –, cheguei ao Paseo Yugoslavo. Marcado pelo icônico Palácio Baburizza, edifício centenário que atualmente abriga o Museu Municipal de Bellas Artes de Valparaíso, o lugar tem um dos primeiros e mais populares mirantes da cidade. Estava no lugar certo. Apesar da vista suavemente acinzentada pela brisa marítima, mirei, enfim, o teatro porteño.
Figura 1: vista parcial, a partir do mirador Yugoslavo, do bairro Playa Ancha e Porto Valparaíso

Fonte: fotografia do autor (2026)
Figura 2: escadarias na zona central, área dos cerros Alegre e Concepción

Fonte: fotografia do autor (2026)
Teatro porteño porque é patente a relevância do porto na formação e dinâmica da cidade. Em Valparaíso, a atividade portuária está relacionada não apenas às suas origens, que remonta a meados do século XVI, como também, desde então, constitui uma das principais portas das importações e exportações chilenas por vias marítimas. Antes da inauguração do Canal Panamá, em 1914, o porto era ainda mais relevante tanto para o Chile quanto para todo o comércio a nível mundial, pois constituía ponto estratégico de passagem das rotas comerciais marítimas entre os oceanos Pacífico e Atlântico via Estreito de Magalhães, extremo sul da América do Sul. Daí a histórica alcunha “La Joya del Pacífico”. Em que pese a ascensão e relevância do Porto de San Antonio, localizado na mesma região (aproximadamente 60 km ao sul de Valpo), que se tornou o maior do país em volume de carga, o de Valparaíso permanece importante. A zona de influência direta (ou hinterland) do porto de Valparaíso se estende por 5 das 16 regiões administrativas do Chile, incluindo a Região Metropolitana de Santiago, alcançando também, a Leste, a região argentina de Cuyo (que inclui as províncias de Mendoza, La Rioja, San Luis e San Juan). Na escala do comércio internacional, interliga o território chileno a portos da América do Sul, América Central, EUA, Ásia e Europa (Puerto Valparaíso, 2024).
Figura 3: Rotas e conexões globais de serviços regulares do Porto Valparaíso (Chile)

Fonte: Puerto Valparaíso (2024)
Teatro porteño também porque, terminologicamente, há outro importante detalhe. Na referida descrição (“...anfiteatro natural...”), o adjetivo soa naturalizante. Embora seu emprego possa ter tido o objetivo de ressaltar a notável característica da topografia local, a formação do assentamento urbano nas grandes encostas dos cerros é, vale ressaltar, algo não natural. Trata-se de evidente adaptação ao sítio no contexto do processo de urbanização. Ocupado o pequeno plano central, ao lado do porto, predominantemente por edifícios comerciais e institucionais, muitos de estilo arquitetônico notadamente europeu – a exemplo do icônico Reloj Turri, onde funciona uma casa de câmbio –, a malha urbana se expandiu sobre os morros. Aí mora um dilema.
Por um lado, a zona central, incluindo o plano baixo e os cerros Alegre e Concepción, apresenta características histórico-culturais que ensejou essa área de Valparaíso ser reconhecida pela Unesco, em 2003, como Patrimônio da Humanidade. É a zona turística. Por outro, o amplo conjunto de variadas habitações espraiadas pelas encostas reflete, em certa medida, como bem estudam os geógrafos chilenos Rodrigo Hidalgo e Ignácio Rojas, “la crisis de la vivienda”, não apenas em Valpo, mas em todo o Chile. Embora muitas das construções pareçam bem estruturadas, nas áreas mais altas dos cerros e longes do centro há uma série de habitações simples e improvisadas, inclusive em áreas de risco. Assim,
Valparaíso es sin duda un lugar donde las manifestaciones de la crisis expresan un verdadero efecto dominó sobre los componentes que la definen en términos de los actores y agentes intervinientes, dibujan de paso el paisaje resultante y expresan las carencias de un modelo de desarrollo que está en pleno resquebrajamiento […] la exclusión de los grupos populares y el riesgo que trae consigo su vulnerabilidad ante amenazas naturales, es un problema generado socialmente, estrechamente relacionado con el funcionamiento del mercado de suelo y las políticas de vivienda (Dattwyler et al, 2023, p. 160-161).
Acompanhado do professor Ignácio – só assim, como ele próprio disse, por ser uma zona “complicada” –, pude subir ao cume do cerro Playa Ancha, o maior bairro da cidade. Durante a subida, apontava sujeitos, homens, parados em esquinas como se vigiando. Também indicava moradias sociais construídas por programas habitacionais do governo chileno e ocupações irregulares situadas literalmente nas extremidades da comuna. Apesar da relativa semelhança à realidade observada também em metrópoles brasileiras, não deixava de ser chocante. Como diz o professor Rodrigo, a crise habitacional chilena não está dissociada de crises generalizadas (política, econômica, ambiental etc.) relacionadas ao neoliberalismo na América Latina. Em suma, conforme concluem Rubio et al (2020, p. 45) “la producción del hábitat urbano en el neoliberalismo releva la contradicción entre valor de uso y valor de cambio, llevando a una tensión constante la ética de la valoración monetaria contra la ética del bienestar humano”.
Figura 4: vista, a partir do Parque Cultural de Valparaíso, de habitações sobre os cerros

Fonte: fotografia do autor (2026)
No dia seguinte, após tanta escalada, fui perambular pela orla. Bloqueada, a sudoeste, pelas instalações portuárias, a única rota possível era na direção noroeste, rumo à comuna vizinha, Vinã del Mar, conurbada com Valparaíso. Em vez de sol forte, praias claras e/ou calçadões movimentados – como em algumas partes do litoral brasileiro –, ventava frio; predominavam barreiras de concreto e rochas escuras de origem vulcânica – marcantemente esbranquiçadas pelas inúmeras aves em repouso à espera da próxima pescaria –, impedindo acesso à água; e se podia caminhar por um curto passeio público (Paseo Mirador Barón Maestranza), com vista um pouco mais próxima do mar. Ademais, margeando a costa, além das avenidas, observava-se a única linha ferroviária, interligando Valpo e Vinã, destinada ao transporte de passageiros. Na percepção da paisagem, caiu a ficha da geografia. Afinal, trata-se do Pacífico, do encontro de placas tectônicas (Nazca e Sul-Americana), dos efeitos da fria corrente marítima de Humboldt e da produção de redes técnicas (infraestrutura) de mobilidade interurbana. Apesar dos obstáculos, segui caminhando. Encantado por conhecer o Pacífico, de um lado, e com a vista da cidade sobre os cerros, de outro, parava para fotos. Com visualização privilegiada ao longo dos 10 quilômetros percorridos, comtemplava a paisagem e refletia sobre minha passagem. Depois de tanto caminhar, sentei-me à beira da praia para fazer torre de pedra e ver o pôr-do-sol. Inquieto por estar longe de casa, buscava calma e equilíbrio. Nesse momento, encontrei-os em Valparaíso.
Figura 5: praia nas proximidades do Paseo Mirador Barón Maestranza

Fonte: fotografia do autor (2026)
Argumentar que Valpo é um teatro porteño é, evidentemente, apenas um ponto de vista. Afinal, como diz a canção do grupo Casuarina, “do ponto de vista do mar quem balança é a praia”. Em que pese a relevância do porto, o palco também pode ser a cidade. Assentada sobre os cerros, vasta, complexa, pulsante, protagoniza, diuturnamente, comédias e tragédias reais. Reflete, pois, por meio de latente segregação socioespacial – quizás naturalizada pelos turistas flagrados em bandos em tours pela zona histórica central –, a produção do espaço e suas inerentes contradições. Os 15 ascensores urbanos ativos – originalmente eram 30, sendo dois na zona tombada pela Unesco – atestam a estratégia técnica para a mobilidade socioespacial local. Apreciados por turistas, todavia, são insuficientes face à demanda de mobilidade dos residentes. Daí as escadarias. Ver uma senhora, com sacolas à mão, ao fim do dia, provavelmente voltando do trabalho, iniciar a escalada de aproximadamente 90 degraus me deixou intrigado. Se Euclides da Cunha a visse, talvez diria que os porteños de Valpo também são, antes de tudo, uns fortes. Não menos relevante é a resiliência de Valparaíso após grandes terremotos que atingiram a região nos anos de 1730, 1822, 1906 e 1985.
Figura 6: Vista parcial de Valparaíso após o terremoto de 1906

Fonte: Chile (2025)
Embora não se trate de um guia turístico, cabe citar outros elementos que também corroboraram a dinâmica espacial local, a exemplo do Parque Cultural Valparaíso, criado a partir das instalações do antigo presídio – onde havia, durante minha visita, uma impactante exposição ("Hilos de la Memoria") sobre mulheres grávidas torturadas, assassinadas e “desaparecidas” durante a ditadura militar chilena (1973-1990); do Congresso Nacional do Chile, transferido para a comuna no início do processo de redemocratização do país; de quatro universidades públicas e privadas (Universidad de Valparaíso, Universidad de Playa Ancha, Universidade Técnica Federico Santa María e Pontifícia Universidad Católica de Valparaíso), caracterizando a cidade como importante centro universitário na região; e, contrastando com o clube privado de iate (Yacht Club de Chile) já na divisa com Vinã, de pessoas em situação de rua abrigadas sob arbustos ao longo das avenidas Errázuriz e España, que margeiam a costa.
Figura 7: bordado da exposição "Hilos de la Memoria", Parque Cultural de Valparaíso

Fonte: fotografia do autor (2026)
Teatro de tragédias e comédias cotidianas enredadas por sua dinâmica e protagonizadas por seus habitantes, Valparaíso me causou, em certa medida, uma catarse. Desfrutar dessa experiência foi o que motivou a escrever este texto.
Hasta luego, Valpo!
Figura 8: vista panorâmica de Valparaíso a partir do cais

Fonte: fotografia do autor (2026)
Referências
CHILE (2025). Museo de Historia Natural de Valparaíso. Noticias. 1906: el año que cambió Valparaíso. Museo de Historia Natural de Valparaíso, Valpaíso, 3 set. 2025. Disponível em: https://www.mhnv.gob.cl/noticias/1906-el-ano-que-cambio-valparaiso. Acesso em: 30 abr. 2026.
CHILE (2026a). Consejo de Monumentos Nacionales. Área Histórica de Valparaíso. Santiago: Ministerio de las Culturas, las Artes y el Patrimonio. Disponível em: https://www.monumentos.gob.cl/monumentos/patrimonios-mundiales/area-historica-de-valparaiso. Acesso em: 1 maio 2026.
CHILE (2026b). Ministerio de Relaciones Exteriores. Organización territorial. Santiago: Gobierno de Chile. Disponível em: https://www.chile.gob.cl/chile/sobre-chile/asi-es-chile/organizacion-territorial/organizacion-territorial. Acesso em: 10 abr. 2026.
DATTWYLER, R. H et al. La crisis de la vivienda en la ciudad de Valparaíso: exclusión, informalidad y riesgos socio-naturales. Revista Notas Históricas y Geográficas, Valparaíso, n. 30, p. 135-164, ene./jun. 2023. Disponível em: https://www.revistanotashistoricasygeograficas.cl. Acesso em: 30 abr. 2026.
NERUDA, Pablo. Oda a Valparaíso. In: NERUDA, Pablo. Obra, Portal de la Universidad de Chile. Santiago: Universidad de Chile, [2026]. Disponível em: https://www.neruda.uchile.cl/obra/obraodaselementales9.html. Acesso em: 30 abr. 2026.
PUERTO VALPARAÍSO. Reporte Integrado 2024. Valparaíso: Empresa Portuária Valparaíso (EPV), 2024. Disponível em: https://www.puertovalparaiso.cl/sostenibilidad/reporte-integrado-2024. Acesso em: 29 abr. 2026.
RUBIO, I. R et al. Habitar el Valparaíso neoliberal: vivienda, hacinamiento y pobreza como marco de la pandemia. O Social em Questão, Rio de Janeiro, ano 23, n. 48, p. 25-52, set./dez. 2020. Disponível em: http://osocialemquestao.ser.puc-rio.br/. Acesso em: 30 abr. 2026.
¹ No Chile, comuna é a menor subdivisão administrativa do território nacional, equivalente ao conceito de município no Brasil. Integra uma província, que, por sua vez, compõe uma região. A organização territorial chilena está dividida em 16 regiões, 56 províncias e 346 comunas. Valparaíso é a principal comuna – por isso, sede – da região homônima localizada na porção central do país.
² Estágio acadêmico de doutorado realizado junto à Facultad de Historia, Geografía y Ciencia Política da Pontifícia Universidad Católica de Chile, na Região Metropolitana de Santiago, sob a supervisão do Prof. Dr. Rodrigo Hidalgo Dattwyler.
Dallys Dantas
Licenciado, Mestre e Doutorando em Geografia pela UFG
Professor EBTT - IFTO
E-mail: dallysdantas@gmail.com
Ficha bibliográfica:
DANTAS, Dallys. Valparaíso: um teatro porteño no Chile. Territorial – Caderno Eletrônico de Textos, vol. 16, n.18, 20 de maio de 2026. [ISSN 2238-5525].
Categorias: territorial